Publicado por: Daniel | 22 de novembro de 2011

Só a Alemanha pode arrumar o Euro – ou só ela poderia

Semana passada o Foreign Affairs publicou excelente artigo em que esmiúça com precisão todas as omissões da Alemanha no desempenho do papel de líder europeu durante a atual crise.

 Pela excelência da análise, recomendo a leitura.

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Publicado por: Daniel | 15 de setembro de 2011

“Brics vão discutir ajuda a países europeus”

A notícia é a seguinte: “Brics vão discutir ajuda a países europeus, diz Mantega”. Eu quase não acreditei quando li tal manchete. Aí eu pensei: “é claro, isso é só uma manchete daquelas com duplo sentido, que atraem a nossa atenção para a matéria, mas que quando a gente lê a matéria a gente descobre que não é bem o que a gente imaginou ao ler a manchete”.

À matéria: “O ministro da Fazenda, Guido Mantega, informou nesta terça-feira, 13, que os países emergentes que integram o grupo Brics (Brasil, China, Rússia e Índia) vão se reunir na próxima semana, em Washington, para discutir uma forma de ajuda aos países da União Européia (…)”.

Era o que eu temia: a impressão que eu tive ao ler a manchete era exatamente a notícia que a matéria queria dar. Gozado! Poucos minutos antes eu tinha lido um artigo, no site de outro jornal, intitulado “Quem vai pagar a conta da crise?”. É claro que o colunista que escreveu esse último artigo não poderia imaginar, nem na mais distante divagação, que a resposta que ele procurava pudesse ser… o Brasil!

Então as coisas funcionam assim: o Brasil, a Índia e a Rússia passaram as últimas duas décadas do século XX trabalhando quase que exclusivamente para pagar juros da dívida de empréstimos contraídos do FMI (Fundo Monetário Internacional, cujos maiores contribuintes – ou cotistas, como preferir – são, naturalmente, a Europa e os Estados Unidos). O FMI, por sua vez, exigia, durante esse tempo todo, que esses países fizessem as reformas por ele ditadas a fim de reunirem condições de arcar com os juros das dívidas – é claro que as vezes isso significava deixar de construir hospitais para sobrar dinheiro para pagar os juros… mas é assim mesmo, diria o FMI.

Mais tempo, menos tempo, um dos Brics, a China, alcança um estágio de desenvolvimento tal que passa a, literalmente, sugar todas as matérias primas do planeta para sustentar seu crescimento*. Brasil, Rússia e Índia se beneficiam enormemente disso e passam a crescer também (o Brasil vendendo minérios, a Rússia energia e Índia vendendo minérios e softwares, todos esses produtos com o preço crescente, graças à demanda chinesa). Pronto! É como se esses países, depois de tanto tempo (e olha que eu comecei a análise na década de 1980, sem falar dos mais de 300 anos de exploração portuguesa sobre o Brasil e pelo menos uns 400 anos de exploração britânica sobre a Índia) pudessem enfim respirar aliviados: as dívidas deles ainda existem, os juros também, mas já que está entrando dinheiro, não precisam mais tirar do básico para pagar os juros (agora é possível pagar os juros e ainda por cima investir no basicão: educação, saúde, segurança, etc).

E aí o leitor dirá: “Vendo assim, parece que esses países resolveram suas vidas e as de duas populações.” Pois é. Mas isso nós sabemos que não é verdade nem aqui nem na China! Rússia, Índia, Brasil e até mesmo a China, ainda estão se equilibrando, buscando descobrir quais as demandas mais urgentes de suas populações e usando aquele dinheirinho suado (e demorado) para, aqui e ali, irem se ajeitando. Mas todos sabem: ainda falta muito, mas muito mesmo, para que qualquer desses países alcance um nível decente de conforto para suas populações.

E aí voltamos à matéria que eu li: Brics buscando uma maneira de ajudar os países europeus? Não parece irreal? “Isso é mania de pobre, que não tem pra ele, mas tem pros outros!”, diria um colega meu. Se é coisa de pobre, eu não sei. Mas que o Brasil não é rico, não é mesmo! Então que história é essa de ajudar países europeus em crise? Eu sei, eu sei… se eles quebrarem, nós nos damos mal também. Mas daí a ajudá-los??? Nós?

E como que seria essa ajuda? A idéia inicial é que os países emergentes comprem títulos da dívida daqueles países europeus que estão em apuros. Títulos da dívida são papéis que um país vende no mercado financeiro para se financiar. Funciona assim: o país está precisando de dinheiro, então ele cria um papel (um título da dívida) e vende no mercado por, digamos, 15 mil euros, prometendo pagar por aqueles mesmos papéis uns 18 mil euros daqui a 2 anos. Só que quando o emitente desse título está em apuros, os agentes do mercado financeiro pensam o seguinte: “opa! Esses daí estão mal das pernas! E se eu comprar esses títulos e eles não conseguirem pagarem? Ah… sei não… não vale a pena não… Quer saber? Não vou comprar isso aí não.”.

Consequência direta disso é que os títulos se desvalorizam (e quem já tiver deles nas mãos, perde dinheiro). E, é claro, pode ser que realmente os emitentes não consigam pagar a dívida (é o famoso calote). Em caso de calote, quem comprou o título não ganha nem o rendimento prometido, nem reembolsa o investimento que fez: nem 15, nem 18 mil. Zero! Por que raios alguém compraria um título desses?

É como se você, caro leitor, se dirigisse ao seu banco e dissesse: “Olha só, eu sei que vocês têm me emprestado, ao longo dos últimos 30 anos, dinheiro a juros abusivos. Eu sei também que eu ainda nem acabei de quitar o apartamento que eu financiei a 25 anos… teria quitado, é claro, se não tivesse ainda que pagar juros por mais uns 15 anos… mas enfim, estou aqui, dizendo que, qualquer coisa, se precisar, pode contar comigo que eu lhe adianto um dinheirinho!”. É como se a Gretchen oferecesse empréstimo ao Bill Gates porque o Bill Gates bateu o carro e vai ter que arrumar. É como se o 15 de Piracicaba abrisse uma linha de financiamento para o São Paulo comprar o Messi.

Ora! Não que os europeus (e os estadunidenses) estivessem errados em emprestar dinheiro para nós no final do século anterior (ou não seria no século anterior todo?). Também não julgo o fato de Portugal ter violentado as minas de ouro do Brasil por tantos anos, nem de a Inglaterra ter construído uma economia mercantil na Índia voltada exclusivamente a sugar todo o potencial produtivo daquele país imenso em proveito do lucro de poucos naquela ilhota. Até o Japão (que nem europeu não é – está entrando aqui de gaiato) passou lá seus muitos anos escravizando chineses… Tudo isso pode ser explicado: “é o mundo capitalista…”, ou “cada um soube aproveitar seu momento”. Sim, sim… concordo com todos. Mas vamos lá: o mundo ainda é capitalista e vai continuar se dando bem quem souber jogar de acordo com as regras do jogo. Coincidência ou não, o Brasil e, em grande medida, os Brics, têm conseguido se adaptar bem às regras atuais. Pra que marcar gol contra?

* É claro, leitor, que esse não é o único fator que coloca os Brics na atual posição, digamos assim, confortável. Há toda uma conjuntura em que esses países se encaixaram e na qual a China desempenhou apenas um papel importante. Vale destacar que a cada vez maior solidez das instituições desses países contribuiu enormemente para que eles funcionassem harmoniosamente nessa engrenagem (mas aí a história já é outra – para outro post, talvez).

Vale dizer: depois que este texto já estava pronto eu li a notícia de que a China está pensando mesmo em comprar esses títulos “quase-podres”, mas que ela tem lá suas exigências (compensatórias, diga-se de passagem). Na mesma notícia ficava claro que Rússia e Índia estavam totalmente desanimadas de entrar nessa furada. E o Brasil? Bom… meu amigo estava certo: o Brasil tem mania de pobre e está sim animado a entrar nessa furada.

Nessa semana o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou algumas providências tomadas no sentido de impedir a constante desvalorização do dólar frente ao real. As medidas adotadas pelo governo e anunciadas pelo ministro tem, como o próprio ministro disse, a função de atingir o especulador que aposta na queda do dólar, impondo-lhe alguns obstáculos a mais à realização do lucro.

A medida é justa, vez que visa a dificultar as ações dos especuladores que apostam na queda do dólar e, assim, impedir que a desvalorização daquela moeda seja sobremaneira agravada por movimentos especulativos. O problema é que a partir do pronunciamento do ministro a imprensa passou a veicular uma série de matérias demonizando o especulador, responsabilizando-o não somente pela desvalorização excessiva do dólar como também, muitas vezes, por todas as mazelas do mercado financeiro.

Só que a história não é bem essa e eu vou tentar desdemonizar a figura do especulador aqui.

Para começar, podemos recorrer à frase do próprio ministro. Ele disse que “a medida visa a punir o especulador que aposta na queda do dólar”. Note, caro leitor, que se trata de uma oração subordinada adjetiva restritiva, ou seja, não é todo especulador que está a apostar na queda do dólar. Naturalmente, há especuladores que o fazem. Esses especuladores que fazem isso (que por sinal não estão cometendo nenhum ato ilegal, nem mesmo imoral) foram desestimulados a fazê-lo com as medidas recentemente adotadas pelo governo. É que essas medidas, agora, fazem com que a aposta dos especuladores nesse sentido demore mais para reverter em lucros reais, tornando menos interessante tal aposta.

O especulador é um personagem extremamente importante no mercado financeiro. Graças a esse personagem o mercado de ações tem liquidez, é dizer, graças aos especuladores você, leitor, pode resolver comprar um lote desta ou daquela ação nesse momento e conseguir fazer essa compra imediatamente, sem ter que sair por aí procurando um vendedor de ações que esteja disposto a vender para você. Os especuladores, visto que estão sempre comprando e vendendo ações, garantem que a todo momento que você quiser comprar uma ação, essa ação estará disponível para compra. E se um dia você resolver vender essa ação, não vai ficar com ela na sua carteira, assistindo-a desvalorizar desesperado: alguém, muito provavelmente um especulador, comprará de você essa ação.

Nesse momento o leitor me dirá que o especulador não dá ao mercado essa liquidez em troco de nada, que ele visa ao lucro, em todas as hipóteses. Isso é correto, mas não explora todos os aspectos do assunto. Que o especulador está atrás do lucro é óbvio. Mas o que está o leitor a fazer no mercado financeiro se não a perseguir o lucro? No mercado financeiro não existem jogadores dispostos a perder, nem mesmo a empatar, e os especuladores, assim como o leitor ou assim como eu, não estão dispostos a perder.

Mas o que os especuladores fazem, nessa busca pelo lucro, é assumir o risco que muitas vezes o leitor não está disposto a assumir. Sim, eles tomam para si o risco, na expectativa de que esse não se realize e de que, assim, lucrem. O risco, sabemos, é uma grandeza proporcional ao lucro: quanto maior o risco, menor a chance de sucesso; quanto menor a chance de sucesso, maior a grandeza do lucro, caso o sucesso efetivamente se realize, ou maior o prejuízo, em caso contrário. Faça uma comparação com apostas em corridas de cavalos: se você aposta no cavalo favorito, terá um retorno pequeno se esse cavalo efetivamente ganhar a corrida, mas se aposta no cavalo perigão, caso esse cavalo ganhe a corrida, seu retorno será bem maior. Por que isso? Porque se é bem mais provável que o cavalo favorito vença, então mais pessoas apostam nele (assumindo cada uma delas um risco mínimo) e o valor do prêmio terá que ser dividido igualmente entre muitas pessoas, resultando em um prêmio pouco maior do que o valor da aposta. Mas se o cavalo perigão acaba sendo o vencedor, visto que poucas pessoas apostaram nele (e essas pessoas correram um risco muito maior de perder o dinheiro de suas apostas), o prêmio será muito maior já que será dividido entre os poucos que toparam assumir o risco que implicava apostar naquele cavalo.

Vamos continuar com o exemplo da corrida de cavalos. Se o cavalo número 1 é o favorito, muitas pessoas vão apostar nele, sabendo que, caso o cavalo número 1 realmente vença a corrida, o montante final de apostas, representado pelo dinheiro de todos os que compraram um bilhete de aposta, será dividido por muitos ganhadores e que cada ganhador terá direito a um quinhão pouco maior do que o valor que ele pagou pelo bilhete de aposta. Nesse cenário, o que o especulador faz é apostar no cavalo número cinco, que tem menos chances de ganhar a corrida e, portanto, vai atrair menos apostadores. É claro que a chance de este especulador perder o dinheiro que investiu no bilhete é muito maior do que a chance de uma pessoa que apostou no cavalo número 1 perder o seu dinheiro. E normalmente é o que acontece: o cavalo número 1 vence a corrida, muitos vencedores dividem o prêmio entre si e saem cada um com pouco mais dinheiro do que tinham quando compraram os bilhetes de aposta, enquanto o sujeito que apostou no cavalo número 5 vai para casa cabisbaixo, pensando que talvez fosse melhor apostar no cavalo número 1 e ganhar pouco dinheiro do que apostar no cavalo número 5 e perder tudo.

Mas pode ser que o cavalo número 5 ganhe a corrida. É a hipótese de o risco assumido pelo sujeito que apostou no cavalo número 5 não se realizar. Nesse caso, o dinheiro de todos os bilhetes comprados será dividido somente entre os poucos corajosos que se dispuseram a apostar no cavalo perigão, ou seja, cada um deles levará para casa um dinheiro muito maior do que o que pagou pelo bilhete. Nesse cenário, muitos vão perder, afinal muitos apostaram no cavalo número 1, e poucos vão ganhar, de modo que esses poucos ganharão bem mais do que os muitos ganhariam caso o cavalo número 1 fosse o campeão.

Acontece que quando muitos ganham e poucos perdem, os muitos ganhadores dividem entre si o dinheiro dos poucos perdedores e voltam para casa felizes, minimamente mais ricos, sem sequer ouvir os poucos perdedores reclamarem. Mas quando poucos ganham e muitos perdem, esses poucos dividem entre si o dinheiro de muitos e voltam para casa consideravelmente mais ricos. Então, esses muitos que perderam pouco dinheiro cada um, mas que viram poucos ganharem muito dinheiro, apontarão para esses poucos ganhadores e os acusarão de especuladores gananciosos e desleais. Mas essa acusação desconsidera que, caso não houvesse esses poucos “especuladores gananciosos”, estaria eliminado o risco da aposta na corrida em cavalos e, consequentemente, a liquidez dos bilhetes de apostas. Ou seja, se todos igualmente comprassem o bilhete de apostas no cavalo número 1, o prêmio seria dividido por todos e ninguém ganharia sequer um centavo a mais do que pagara pelo bilhete.

No mercado financeiro é exatamente a mesma coisa que os especuladores fazem: assumem um risco grande de perder dinheiro vislumbrando a oportunidade de ganhar muito dinheiro e, com isso, permitem que o restante do mercado ganhe algum dinheiro, às suas custas, sempre que a aposta desse especulador se mostrar frustrada.

Não é, portanto, o especulador, essa figura demoníaca que sonda o mercado com o intuito de sugar o dinheiro daqueles que penosamente investem nessa ou naquela ação. Ele na verdade é quem possibilita que essas pessoas sempre consigam comprar ou vender suas ações e que essas ações lhes engordem o patrimônio toda vez que os especuladores façam a aposta errada, dividindo seu dinheiro entre muitos investidores que não quiseram nada além de um risco mínimo. É assim que o mercado funciona, e é assim que é bom para mim, para você, para o investidor propriamente dito e, por que não, para o especulador.

Publicado por: Daniel | 13 de julho de 2011

O que são impostos?

Tive uma participação no Blog da minha amiga, a jornalista Thayara Martins, onde falei sobre impostos e relacionei o tema com o quotididiano do cidadão brasileiro.

Para acessar o blog, clique aqui,
Para ler o texto, clique aqui.

http://lolacomolegusta.wordpress.com

Publicado por: Daniel | 24 de junho de 2011

Agostinho Carrara investindo na Bolsa!

Assistindo ao programa de ontem da Grande Família eu descobri que ninguém menos do que o Agostinho Carrara está planejando investir no mercado de ações. O interesse do sempre encrencado personagem do programa de televisão reflete um fenômeno muito interessante e extremamente bem vindo que está acontecendo no Brasil: a popularização da bolsa de valores.

Não é segredo para ninguém que a economia do país tem crescido nos últimos anos e um reflexo disso tem se dado na crescente procura de investidores individuais pela bolsa de valores. Prova disso é que nos últimos 9 anos o número de investidores individuais na Bovespa saltou de 85 mil para 600 mil, e há quem faça previsões de que em 2014 esse número chegue a  5 milhões.

Por que isso é bom? Isso é bom por uma variedade muito grande de motivos, a começar pela função precípua da bolsa: capitalizar as empresas. As empresas lançam ações (que são, por assim dizer, pedacinhos da empresa precificados) para, com a venda dessas ações no mercado, recolherem dinheiro e fazerem caixa para usar em investimentos. Esses investimentos fazem a empresa crescer, valorizar-se e aumentar o preço das ações. Quanto mais gente disposta a investir na Bolsa, maior fica essa fonte de financiamento das empresas e maior o número de empresas que conseguem capital para crescer. O cada vez maior número de empresas que fazem uma Oferta Pública de Ações (abrem capital) é um bom indicativo de que esse método de financiamento do mercado de ações tem funcionado (o que não seria possível sem esse componente tão básico de qualquer mercado: a demanda).

Mas e para nós, investidores, como pode ser boa essa procura crescente pela bolsa? Ora, o pedaço que eu tenho da pizza vale hoje 10 reais porque existem 600 mil potenciais compradores para ele. Se amanhã, ao invés de 600 mil potenciais compradores, houver 3 milhões, meu pedaço da pizza vai estar valendo bem mais do que 10 reais: outra vez a regra da procura e da oferta. Quer um exemplo? Em 2002 o Ibovespa estava por volta dos 11.000 pontos, e hoje está na casa dos 60.000 pontos.

E será que o Agostinho Carrara, um típico cidadão de classe média baixa, tem condições de investir na bolsa*? Ou esse tipo de investimento ainda é específico para quem tem um grande capital disponível e tempo de sobra para acompanhar o mercado? A resposta é sim. Hoje em dia é possível começar a investir em ações com um capital inicial de R$ 200,00. Além disso, as corretoras costumam oferecer cursos de introdução no mercado de valores e a internet tem sido um excelente meio para introduzir novos investidores (embora, vale ressaltar, nem sempre o que se encontre na internet seja confiável).

O fato é que mesmo quem tem pouco capital disponível para investir pode encontrar alternativas muito viáveis na Bolsa de Valores. Se você está interessado, procure uma corretora de valores, informe-se dos riscos e de como reduzi-los e comece a investir!

* Vale dizer: o investimento no mercado de ações só pode ser bem sucedido se o dinheiro ali alocado não estiver comprometido com outros fins. Em outras palavras, tem que ser aquele “dinheiro que sobra”, e não aquele dinheiro com o qual se pretende fazer alguma coisa pelo menos em um futuro próximo.


É argumento correntemente utilizado pelos defensores da legalização do uso da maconha que, uma vez legalizada essa droga, o Estado estaria autorizado a tributá-la. Essa tributação forneceria ao Estado uma fonte de renda nova e extremamente abundante e, com esse dinheiro em caixa, o Estado seria capaz de arcar com os custos de saúde pública gerados pela maconha. Reduzindo ao absurdo, como costuma fazer quem se utiliza desse argumento, é como se a maconha financiasse a saúde pública do país.

Parece um argumento muito bonito, afinal, os gastos com saúde pública decorrentes do uso da maconha existem, mas a receita para arcar com esse gasto ainda não existe. Economicamente falando, porém, esse argumento é de uma estupidez homersimpsoniana por pelo menos dois motivos.

O primeiro motivo é macroeconômico. O Estado tem despesas e receitas. Para o bem de quem vive nesse Estado, é preferível que as receitas sejam iguais as despesas, e a política tributária é uma forma que o Estado tem de equilibrar essa balança extremamente complexa. Nenhuma vez, porém, que eu vi, ouvi ou li alguém lançando mão do argumento da tributação para legalizar a maconha, esse alguém conseguiu comprovar que a tributação geraria recursos suficientes para cobrir as despesas de saúde pública geradas pela maconha. Pior ainda: nenhum desses defensores conseguiu sequer garantir que a liberação do uso da maconha não aumentaria sobremaneira o gasto público com saúde.

Eu não sou especialista em saúde, mas sei que na visão dos especialistas em saúde a maconha é a porta de entrada para o consumo de outras incontáveis drogas. Seguindo esse raciocínio entende-se que a liberação do uso da maconha vai aumentar o uso da maconha (afinal, agora não é mais crime fumar maconha) e por conseqüência o uso de outras drogas (que são ilícitas hoje e vão continuar sendo ilícitas se for legalizada a maconha). O foco da minha preocupação aqui não é tanto o aspecto criminal ou social disso, mas o aspecto econômico: ora, se aumenta o uso de outras drogas, aumentam os problemas de saúde pública e o gasto do Estado com saúde pública. E quem é que sabe qual é o tamanho desse aumento? Qual defensor da legalização do uso da maconha sabe mensurar, ou pelo menos tem estudos prevendo a quantificação desse fenômeno? Em outras palavras: sobre qual parâmetro o Estado vai se apoiar para, legalizada a maconha, equilibrar aquela balança da política monetária?

 O segundo motivo é concorrencial. Você sabe qual é, em média, a tributação que incide sobre um produto ou serviço no Brasil? Em média e por baixo, 30% do valor dos produtos e serviços no Brasil são imposto. Em um ingresso de cinema de R$ 15,00, 30% disso, ou R$ 4,50, são imposto. Mas essa é a média. Quando por algum motivo o Estado acha que é desinteressante estimular o consumo de algum produto ou serviço, ele sobrecarrega os impostos daquele produto. Um exemplo bem oportuno é o cigarro. O motivo para o Estado desestimular o consumo de cigarro é claramente a saúde pública. Assim é que 80,42% do valor do cigarro são imposto, o que significa dizer que em um maço de R$ 5,00, quatro reais são imposto. Se o sujeito fuma dois maços de cigarro por dia, ao final do mês ele terá gastado R$ 60,00 com cigarros e R$ 240,00 com impostos. Você consegue imaginar qual o imposto que o Estado vai infligir à maconha, se seu consumo for legalizado?

Mas eu disse que o problema era concorrencial.  Ocorre que nem Homer Simpson consegue aceitar que a legalização da maconha desencadeará um desemprego em massa de traficantes de maconha. A rigor, mercadologicamente falando, a legalização da maconha será um presente dos deuses ao empreendimento dos traficantes. Eles vão ganhar todo um mercado negro criado especificamente para eles e onde eles já possuem todo o know-how e carteira clientelística que qualquer comerciante precisa. Isso mesmo, o Estado vai tirar o problema que hoje está na ilicitude do produto e transportar para a ilicitude do comércio. E se hoje o Estado não tem estrutura para combater o tráfico de drogas ilegais, ninguém no mundo me convence que amanhã vai ter estrutura para combater o comércio ilegal – de drogas.

Assim é que a maconha que vier a ser comercializada nos marijuana-shops vai custar extremamente mais caro do que a maconha que os traficantes vão continuar a vender. Os problemas que toda a sociedade tem hoje pelo tráfico de drogas vão permanecer inalterados, mas não mais pelo tráfico de drogas somente, mas pelo tráfico de drogas (as que continuam ilícitas) e pelo comércio ilegal da maconha (que é lícita). O sujeito que matava e roubava para manter forte seu comércio de drogas ilegais, agora vai matar e roubar para manter forte o seu comércio ilegal de drogas legais e seu comércio de drogas ilegais.

Em pouco tempo, até o Homer vai perceber que a legalização do consumo de maconha criou milhões de novos consumidores para a droga, mas que esses consumidores, novos e antigos, recorrem muito mais aos traficantes do que aos marijuna-shops (que vendem um produto com muito mais imposto, que tem de pagar salário – com impostos – para todos os seus empregados, que tem que pagar IPTU pelo imóvel onde vendem a maconha, que tem que pagar imposto pela renda que auferir da venda da maconha, etc). Que os traficantes, que eram poderosos porque comercializavam um produto ilícito, agora são muito mais poderosos porque comercializam ilegalmente o mesmo produto, agora lícito. Que a legalização da maconha aumentou o mercado consumidor da maconha que os traficantes vendiam. Que, como a maconha é porta de entrada para outras drogas, agora existe um mercado consumidor de drogas mais pesadas do que a maconha muito maior do que outrora. Que os problemas de saúde pública decorrentes dessa bola de neve de consumo de maconha e das drogas ilícitas aumentaram sobremaneira…

E que a tributação da maconha legalmente vendida é irrisória para combater todos esses problemas (os inéditos, criados pela legalização da droga, e os antigos, provenientes já da época que a maconha era ilegal e que não foram resolvidos pela sua legalização), restando ainda mais desequilibrada aquela balança receita vs. despesas, com consequências imensuráveis para o bem estar da população que depende de um mínimo de equilíbrio nessa balança.

Daniel Baramili

Publicado por: Daniel | 13 de junho de 2011

Taxa de juros pelo mundo

Hoje o The Wall Street Journal publicou uma matéria de capa explorando o dilema atual que a economia do Brasil vive: de um lado a oferta ampla de crédito dos últimos anos (responsável em grande parte pelo vigor do mercado consumidor interno, a consequente blindagem na crise de 2008 e os excelentes números de crescimento); do outro, a briga que o país vem tendo com a inflação (originada justamente por esse aquecimento da economia) e o remédio tradicional aplicado a essa doença, qual seja, o aumento de juros. A matéria é interessante ao abordar esse cabo de guerra econômico de crédito farto e juros crescente.

No entanto, o que eu trago para a Minha Carteira é o interessantíssimo infográfico que o jornal publicou em seu site. No gráfico é possível visualizar a evolução das taxas de juros das principais economias do planetas desde 2004 até hoje. São dois pontos que eu achei particularmente interessantes: a nítida visualização da reação global à crise de 2008 e, em segundo lugar, as diferenças de juros nos EUA (0,125%) e no Japão (0,05%), que são países desenvolvidos, da Índia (7,25%) e da Rússia (8,25%), outros integrantes dos BRICs, e do Brasil (12,25%). Os efeitos e a os motivos dessa taxa de juros tão elevadas vão ser assuntos de outros posts.

Acesse o gráfico (aberto a não-assinantes) em http://online.wsj.com/article/SB10001424052702304066504576347234249361032.html#articleTabs_interactive%3D%26articleTabs%3Dinteractive

Publicado por: Daniel | 21 de março de 2011

Sarney, a menina da limpeza e a injustiça fiscal

Não é segredo para ninguém que a carga tributária suportada pelos brasileiros é excessivamente alta. De acordo com o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), em 2010 os contribuintes (nós) pagaram (pagamos) o equivalente a 35,04% do PIB brasileiro em tributos. Em outras palavras: 35% de tudo o que o país gerou de riqueza durante o ano passado virou tributo. Em palavras melhores ainda: 35% de tudo o que o país fez de dinheiro em 2010 foi parar nos cofres do governo (ou nos bolsos de alguns governantes, se preferir). Para os curiosos, 35% do PIB brasileiro equivalem a aproximadamente 1,29 trilhões de reais.

Parece um absurdo que tudo o que a oitava maior economia do mundo destine todo esse dinheiro para o funcionamento da burocracia estatal. Mas esse não é nem o menor dos problemas. Afinal, economias maiores do que a nossa (i.e. França e Reino Unido) possuem uma carga tributária bem maior. O problema mesmo é que, diferente de cidadãos franceses, o pai brasileiro paga “esse imposto todo” para o Estado cumprir com as suas obrigações (constitucionais, diga-se de passagem) de oferecer, por exemplo, educação, saúde e lazer. Mas se esse pai puder escolher entre colocar o filho dele em uma escola pública (financiada pelo dinheiro dos impostos que ele já pagou) e uma escola particular, ele certamente colocará a criança na escola particular (já que ele sabe que a educação que o Estado fornece via escola pública é bem inferior à particular). Quando esse pai paga a mensalidade da escola, tecnicamente falando, ele está pagando, pela segunda vez, para que seu filho tenha a educação necessária (a primeira vez foi com tributos, naturalmente). Mas esse pai nem sabe que 37,68% do valor da mensalidade que ele transfere para a escola todo mês não vão para a escola, mas para o Estado, porque são tributos incidentes sobre a mensalidade escolar. Resumindo, o pai de família só consegue dar educação de alguma qualidade para o filho se pagar por ela, pelo menos, três vezes, duas das quais para o Estado.

Semana passada foi a semana nacional de justiça fiscal. O Sindicato dos Procuradores da Fazenda lançou a campanha “Quanto custa o Brasil para você” (confira o site www.quantocustaobrasil.com.br) pela reforma tributária. No site da campanha o SINPROFAZ disponibilizou uma tabela auto-explicativa que mostra qual é a porcentagem de imposto que pagamos em diversos produtos (é inclusive a fonte do dado relativo à mensalidade escolar).

Dando uma olhada bastante rápida na tabela já fica claro outro problema da tributação no Brasil, a injustiça fiscal. O que significa isso? Significa que tanto a menina da limpeza do condomínio onde eu moro (que ganha um salário mínimo de R$ 545,00) quanto o Sarney (a quem a menina da limpeza aqui do condomínio, eu e você pagamos o salário de R$ 26.723,12), quando compram um litro de óleo de soja, desembolsam a mesma quantia de impostos por litro comprado, que no caso é de 37%. Ou seja, não importa se é o Sarney ou a menina da limpeza que comprou o óleo de soja de R$ 3,00, de um jeito ou de outro o Estado vai ficar, por conta dos tributos, com R$ 1,11 desses R$ 3,00. Por que exatamente isso é injusto? Porque R$ 1,11 significa muito mais para quem ganha quinhentos reais do que para quem ganha 25 mil! Se ambos entrarem em um supermercado juntos e fizerem, cada um, uma compra de R$ 200,00, ambos vão deixar ali, de impostos, os mesmos (aproximadamente) R$ 70,00. Só que R$ 70,00 significa quase 13% da renda mensal da menina da limpeza e nada mais do que 0,0025% da renda do Sarney.

Se você vai a um restaurante fino e pede um prato com arroz, fritas e frango grelhado, o restaurante vai cobrar seu preço. No meu restaurante preferido (que eu não vou dizer o nome porque não me pagaram nada por isso) o preço é de R$ 46,00. Se você vai a um restaurante do centro e pede um prato com arroz, fritas e frango grelhado, o restaurante também cobrar seu preço (por cima, R$ 7,00). Por que isso acontece? Porque é assim que o mercado funciona. O mercado cobra mais de quem ele sabe que pode pagar mais (e quem vai a um restaurante fino pode pagar mais por arroz e fritas) e menos de quem não pode. O sistema tributário deveria funcionar exatamente como o mercado de restaurantes, mas como o mercado é regulado por ele mesmo e os tributos são regulados pelo Estado (que é burro), o sistema tributário é burro. E ele não é burro somente porque cobra do rico e do pobre* o mesmo tributo. Ele é burro porque cobra do rico e do pobre o tributo que só o rico deveria pagar. É como se o Estado forçasse a menina da limpeza a pagar os mesmos R$ 46,00 pelo arroz com fritas que o Sarney paga, em vez de fazer o Sarney pagar R$ 7,00 pelo prato, ou então ambos pagarem, cada um, R$ 8,00 pelo prato.

E esse é só um dos males do atual desenho do sistema tributário do país. Ainda temos que pensar que o exorbitante tributo que o empresário paga para assinar a carteira do seu funcionário desestimula a geração de empregos, que os altos e repetidos tributos que o industrial paga para conseguir produzir desfavorecem as empresas brasileiras diante das estrangeiras, que o imposto sobre produtos diminui o consumo e a circulação de dinheiro…

A Reforma Tributária no Brasil é necessária sim. No entanto, considerando que cabe justamente a Sarney e Cia o desenho de um novo sistema tributário no país, muito dificilmente a reforma tributária que veremos algum dia não será capaz de resolver nem um décimo dos problemas que o atual sistema tributário tem. Minha aposta é que, pela competência dos nossos parlamentares**, o futuro sistema tributário em vez de resolver os problemas existentes, criem ainda novos problemas inesperados. Falando em parlamentares, a carga tributária no Brasil nem precisaria ser tão alta se não houvesse tanta corrupção… mas esse é um assunto para outro papo.

*rico e pobre estão aplicados nesse texto como metáforas que eu criei para exemplificar a injustiça tributária no país. É óbvio, no entanto, que a injustiça é muito mais complexa do que seria se existissem somente essas duas categorias em questão.

** vale dizer que há bons parlamentares empenhados na reforma tributária no Brasil. Inclusive assisti no final do ano passado, na UnB, palestra proferida pelo relator da reforma na Câmara, Deputado Sandro Mabel, que apresentou muitas boas propostas e algumas ruins, embora me pareça que tenha deixado de lado algumas questões importantes.

Publicado por: Daniel | 18 de janeiro de 2011

Um novo indicador para a Bolsa: o Twitter

Já imaginou comparar o estado de ânimo dos usuários do Twitter com o desempenho das Bolsas mundo afora? Foi exatamente o que acadêmicos de Universidades Indianas e Inglesas fizeram em um estudo. O estudo analisou cerca de 10 milhões de “twitadas”, cruzando o estado de ânimo mostrado na caixinha de texto com a data e o desempenho do Dow Jones. O resultado? Em 87% dos dias o resultado foi compatível, ou seja, “tweeters” com bom humor, índice em alta, “tweeters” com mal humor, índice em baixa. Um indicador com 87% de precisão é um tesouro, não é mesmo?

Confira mais detalhes sobre o estudo em http://blogs.clarin.com/economiainsolita/2010/11/23/la-ansiedad-en-140-caracteres-y-el-futuro-de-los-mercados/

Publicado por: Daniel | 12 de janeiro de 2011

Laos Stock Exchange

Eu lembro que no ensino médio meu professor de história dizia com os olhos brilhando: _ O mais fascinante do capitalismo é que ele é tão dinâmico que, onde você menos espera que ele vá triunfar, lá estará ele, forte como um touro.

Impossível não lembrar desse professor diante da notícia de que o Laos, um país comunista desde 1975, de 6,2 milhões de habitantes, sem saída para o mar e com a economia mais subdesenvolvida do sudeste asiático, inaugurou ontem, terça-feira, 11 de janeiro, sua própria bolsa de valores. Logo a bolsa de valores, diria meu professor, talvez o símbolo mais representativo do capitalismo.

A princípio, a bolsa, que foi uma iniciativa da Bolsa da Coréia do Sul, tem apenas duas ações em lista: a EDL Generation e o Banque Pour Le Commerce Exterieur Lao (BCEL), a primeira uma é companhia elétrica, a segunda é um banco e ambas, obviamente, são estatais. Até o final do ano espera-se que de 4 a 7 empresas passem a ofertar ações naquele mercado.

O primeiro dia de negociações foi promissor: as ações da companhia elétrica subiram 9,3% e as ações do banco subiram impressionantes 45%! Forte como um touro!

O principal estímulo para o Laos vem do vizinho Vietnã, igualmente comunista, que em 2000 inaugurava sua bolsa também com duas ações e que hoje, depois de 10 anos de crescimento econômico do país, já conta com 275 ações listadas.

AFP PHOTO/Laurent FIEVET  – Retirada do site do Finacial Times (Photo credit should read LAURENT FIEVET/AFP/Getty Images)

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